sexta-feira, 21 de junho de 2013

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"Vede, vede, é dia já… Vede o dia... Fazei tudo por reparardes só no dia, no dia real, ali fora... Vede-o, vede-o... Ele consola. Não penseis, não olheis para o que pensais... Vede-o a vir, o dia... Ele brilha como ouro numa terra de prata. As leves nuvens arredondam-se à medida que se coloram. Se nada existisse, (...) Se tudo fosse, qualquer modo, absolutamente coisa nenhuma?"

Fernando Pessoa, in O Marinheiro



Senti dores que não eram dores. Pela primeira vez, descobri a alegria de senti-las, e percebi que até a beleza dos sentimentos inexplicáveis podem ser traduzidos em sensações físicas, imprevisíveis e incontroláveis. Medo. De tudo. De sair, de sentar, medo da espera, medo de sentir medo, medo que a dor fosse um aviso. Ainda assim, fui atrás da razão das minhas dores. Trêmulo, segurei o copo entre as mãos, e entre olhar para o corredor e o relógio, não percebi que a dor passara. A ansiedade, o medo, a dor, viraram espera, os segundos viraram horas e as horas todas resumiram-se em um pequeno sorriso. Já não estava só. Hoje, dias depois de sentir  pela primeira vez as dores que não eram dores, de descobrir a alegria de senti-las e de perceber que até a beleza dos sentimentos inexplicáveis podem ser traduzidos em sensações físicas, imprevisíveis e incontroláveis, torno a estar sozinho. E não há mágoa ou revolta, apenas dúvidas. Muitas. Tantas quanto dura a noite em que não durmo, o horário do almoço em que não como, a tarde de trabalho na qual nada produzo a não ser mais dúvidas. Hoje, mais do que nunca, descobri como é ter saudade de algo que nunca tive. Que nunca vou ter. 

Nunca.
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