sexta-feira, 17 de maio de 2013

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Uma gota, depois outra. Sinto o sangue quente escorrer pelo rosto e vejo-o repousar delicadamente sobre o papel, desenhando formas, apagando pontos, vírgulas, desespero e desencontros. É tão tarde e eu pareço tão distante de tudo que imagino ser um sonho. Largo a caneta, mãos doloridas, bolhas de sangue. Sem notar, laudas e laudas preenchidas em letra minúscula, corrida, sufocada, desesperada. Nankin. Escuro como o sangue quente no rosto e no papel, como a noite turva e úmida. Negro como os sonhos que tenho. Não sei dizer nada sobre os sonhos, a não ser isso. São sonhos mesmo? Tenho dúvidas. Sonhos são para as pessoas boas. Gente como eu tem pesadelos. Pe-sa-de-los. Repito mais uma vez, para não esquecer. Uma cabeça inquieta, inconformada, perturbada. Não, não mereço sonhar. Vivo, aguardo o castigo. O próximo castigo. Cólica. Cada pontada parece rasgar a carne de dentro para fora, uma lâmina seca e cega, demorada, caprichosa e cruel. Engulo o comprimido pequeno, branco. Até a água é amarga. Lembro de quando era pequeno e minha mãe cuidava de mim nesses dias em que o corpo parece gritar. Os comprimidos eram doces. Não fossem, colocava açúcar e eu sorria porque tinha certeza que ficaria bem. Ficaria bem... já não sei o que é isso. Insônia, febre, cólica. Uma existência amarga, o sorriso esquecido num envelope negro. Tomo novamente a caneta entre os dedos, limpo o sangue do rosto, mudo de posição na cadeira. Por segundos o inferno em mim repousa, até que volte com força total. Recomeço a escrever, alternando as mãos. As bolhas estouram. Ambas. Linhas irregulares, sangue negro como o nankin. No papel a história se repete, mas não da mesma forma. A dor sempre aparece de maneiras diferentes. É assim mesmo, para que eu não me acostume, para que sempre sinta, a cada vez, de uma forma mais dura. Ouço a chuva lá fora, vejo a luz da rua borrada pela água depositada na janela. Vejo a janela borrada pela água depositada em meus olhos. Preciso dormir, descansar. Só assim consigo suportar tudo novamente. A luz da rua apaga. Está na hora.

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domingo, 12 de maio de 2013

Eu não devia estar ali, e é o muito que tenho a dizer. A pessoa errada, no lugar errado, na hora errada. Sempre assim. Quem sabe um dia eu me acostume. Um bom amigo diz que sou uma daquelas coisas ruins que acontecem para pessoas boas. Talvez ele esteja não apenas certo, mas coberto de razão. Parado, garrafa vazia na mão, olhar distante. Música alta, sono, cansaço. Eu não devia estar ali, nem perto. Passou por mim, casaquinho com corações vermelhos, olhos desenhados e sorriso diferente. Eu não devia estar ali para notar. Mas notei. E de repente não me importei de estar num lugar do qual não gosto, ouvindo músicas para mim detestáveis, assim como a maioria das pessoas naquele lugar onde eu não deveria estar. Depois de alguns minutos, me perguntava o que havia de errado com aquela pessoa incrível — porque procuro o pior nas pessoas para ter razão para me afastar delas e deixá-las para trás — só que não encontrei. Já era tarde. Deixei-a em casa, sensação estranha. Vazio. Tive vontade de voltar, mas não voltei. Depois tive vontade de convidá-la para um café, mas não o fiz. Lembrei de que sou aquela coisa ruim que acontece para pessoas boas. Desde aquele dia não sorri. O vazio permanece. Espero que ela esteja feliz.