terça-feira, 2 de abril de 2013

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Vejo-a sem forma e cores, inconformado. Nunca mais pude olhar seu rosto, e hoje já me esqueço como são seus traços, seus olhos, a forma como fala, como caminha; já não me lembro qual a cor preferida para o esmalte, qual combinação de casaco e sapato me faziam sorrir, nem o sabor do prato preferido no restaurante que eu mais gostava. Aos poucos a vida vai perdendo as cores, a memória fraca, aliada ao esforço brutal para tudo esquecer, transformar em nada mais, nem menos. Só que nada permanece igual, mesmo que eu queira. Sequer sou o mesmo, e talvez pouca coisa lembre quem realmente sou. 17 quilos a menos, braços e pernas mais fortes do que nunca, alguns poucos cabelos brancos, jeans pretos, tênis azuis ou vermelhos. Lembro que gosto de cores, mas hoje elas são apenas uma referência nas caixas e nas tabelas que uso para trabalhar. Trabalho com cores, você lembra? Talvez, melhor, quase certeza, de que não. Vírgulas, muitas. O que faço é de pequena importância, o que sou é de mínima importância, quem quero ser já não importa. Já não sei escrever, ou já não sei ser linear no que escrevo. Cada vez que busco a caneta e uma folha de papel kraft milhões de coisas passam, voam, caem e despedaçam, depois se reerguem, numa reconstrução ora torta, ora heróica. O dia me deixa desperto, a noite me mantém acordado. A-cor-da-do. Durmo pouco por noite, muito pouco, faço muita força. Para ser, para estar, para sorrir, para agir. Para dormir também. Lá fora chove mais uma vez. Aqui  acompanho, por vezes imóvel, as pequenas gotas d'água que escorrem pela janela. Vez ou outra elas não chegam a tocar o vidro, vindas de trás da casa. Perdi a noção, norte, sul, não sei. A mesma música toca pela quinta ou sexta vez, sei a letra mas não consigo recordar o nome. Murder me... tocou no dia em que fui de carona para fora de algum lugar. A flor no painel, não sei de qual cor era. Era verdadeira? Apenas duas esquinas, 3 quarteirões, sorri e chorei. Chorei de felicidade, sorri de alívio, de satisfação. Depois chorei muito mais de tristeza, de arrependimento, de dor. E não sorri mais. Não mais da mesma forma. Talvez pela dor, pelo medo, pelo receio, por achar que não mereço. Mais uma linha, duas, tantas. Tantas quantas consigo preencher. Mãos doloridas por segurar a caneta, olhos doloridos. Força e fraqueza. A vida se arrasta, sorrateira, consumindo, aos poucos, o pouco tempo. Começo um novo livro assim que o anterior se esgota. Amargo. Vermelho. Triste. Você sabe? Talvez não saiba. Domingo era páscoa, mudei um pouco a direção e fui parar no parque. Elas estavam lá, uma família muito maior reunida, cuidadosas como sempre. Há tempos que não as visitava. E de repente tudo ficou turvo, pelo rosto um suor amargo, a boca seca, lágrimas nos olhos. Deixei-as onde estavam, em paz, delicadas e lindas. Não posso ter lembranças, elas são brutais. Mais um dia, menos um dia. Na brincadeira de esconde-esconde fui encontrado pela tristeza, não consegui encontrar a felicidade e a brincadeira terminou mais cedo. Todos para dentro, está escuro. Para mim sempre esteve escuro. Há esse muro em volta, e arrebento as mãos e braços na ânsia desesperada de derrubá-lo. Não queria um muro só meu, não queria esquecer, não queria querer. Por hora é isso. Está tarde/cedo, hora de ficar acordado, pois os olhos não param, não dão descanso. Lá fora já está tudo quieto. Acho que é madrugada...

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