segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

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Atravessei a rua sem olhar para os lados. Duas pistas, movimento, luzes. Ouvi freadas, palavrões, gritos. E não vi nada. Absolutamente nada. Sei que alguém me seguiu, já na calçada, aos berros. Mas nem olhei para trás, nem parei. Na próxima esquina, a mesma coisa. E na próxima, e na outra da mesma forma. E também em todas as outras. Não tirei as mãos dos bolsos, a mochila das costas, os olhos do chão. Dos olhos não tirei as lágrimas, do coração as dores, da cabeça as dúvidas. E duvidava que chegasse em casa, na casa que não é minha. Não parei quando começou a chuva. Mas vi quando ela parou. E passei reto em mais um semáforo, sem sequer ver a cor. Naquele pequeno mundo nem existiam cores. Preto e branco, claro e escuro. O claro foi-se, ficou só escuro. E já não posso ver mais nada.

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