segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

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Vieram logo cedo. Em pé, de frente para a janela, eu já os esperava. Sabia que chegariam pela manhã, cedinho. E quando chegaram já encontraram tudo pronto e organizado. Eram várias caixas, e não foi sem um bom tanto de trabalho que colocaram tudo em uma van e levaram embora. Eram caixas e caixas de histórias, recordações, memórias. Poesia e prosa, alegria e tristeza.

Quem sabe em sua nova casa, as histórias, mesmo aquelas tristes, encontrem felicidade em novos olhos, olhos com vontade de descoberta. Quem sabe o encantamento das letras que tanto me cativaram encontre alguém com tanta vontade de descobrir o que há além das barreiras quanto eu. Cuidadosamente separados, personagens importantes e desimportantes, principais e coadjuvantes, felizes, infelizes, lugares próximos e distantes, paisagens reais e inventadas, reproduzidas ou criadas por aqueles que tanto se esmeraram em nos contar o que viram ou imaginaram, aqui ou acolá.

Vieram logo cedo, e eu sabia que viriam logo cedo, por isso nem dormi. Não queria deixá-los esperando. Eram caixas e caixas... pesadas caixas de madeira, dessas que outrora guardavam importantes peças de um imenso quebra-cabeças de metal e policarbonato.

O carro vai embora. Dentro dele, além de personagens importantes e desimportantes, principais e coadjuvantes, felizes, infelizes, lugares próximos e distantes, paisagens reais e inventadas, reproduzidas ou criadas, felicidade.

Não sei ao certo que dia era, só lembro que chovia bastante, mas eles estavam todos protegidos. E com certeza continuarão assim em sua nova casa. Quem sabe eu vá visitá-los hora ou outra. Na volta para o quarto, mais silêncio do que nunca. Paredes brancas, estantes vazias. Minimalismo e solidão. Assim foi o dia em que doei todos os meus livros.

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