terça-feira, 14 de junho de 2011

.

429

Em todos os lugares da vida, em todas as situações e convivências, eu fui
sempre, para todos, um intruso. Pelo menos, fui sempre um estranho. No meio
de parentes, como no de conhecidos, fui sempre sentido como alguém de fora.
Não digo que o fui, uma só vez sequer, de caso pensado. Mas fui-o sempre por
uma atitude espontânea da média dos temperamentos alheios.

Fui sempre, por toda parte e por todos, tratado com simpatia. A pouquíssimos,
creio, terá tão pouca gente erguido a voz, ou franzido a testa, ou falado alto ou
de terça. Mas a simpatia, com que sempre me trataram, foi sempre isenta de
afeição. Para os mais naturalmente íntimos fui sempre um hóspede, que, por
hóspede, é bem tratado, mas sempre com a atenção devida ao estranho, e a
falta de afeição merecida pelo intruso.

Não duvido que tudo isto, da atitude dos outros, derive principalmente de
qualquer obscura causa intrínseca ao meu próprio temperamento. Sou
porventura de uma frieza comunicativa, que involuntariamente obriga os
outros a reflectirem o meu modo de pouco sentir.

Travo, por índole, rapidamente conhecimentos. Tardam-me pouco as simpatias
dos outros. Mas as afeições nunca chegam. Dedicações nunca as conheci.
Amarem, foi coisa que sempre me pareceu impossível, como um estranho
tratar-me por tu. Não sei se sofra com isto, se o aceite como um destino
indiferente, em que não há nem que sofrer nem que aceitar.

Desejei sempre agradar. Doeu-me sempre que fossem indiferentes. Órfão da
Fortuna, tenho, como todos os órfãos, a necessidade de ser o objecto da
afeição de alguém. Passei sempre fome da realização dessa necessidade. Tanto
me adaptei a essa fome inevitável que, por vezes, nem sei se sinto a
necessidade de comer.

Com isto ou sem isto a vida dói-me.

Os outros têm quem se lhes dedique. Eu nunca tive sequer pensasse em se me
dedicar. Servem os outros: a mim tratam-me bem.

Reconheço em mim a capacidade de provocar respeito, mas não afeição.
Infelizmente não tenho feito nada com que justifique a si próprio esse respeito
começado quem o sinta; de modo que nunca chegam a respeitar-me deveras.
Julgo às vezes que gozo sofrer. Mas na verdade eu preferia outra coisa.
Não tenho qualidades de Chefe, nem de sequaz. Nem sequer as tenho de
satisfeito, que são as que valem quando essas outras faltem. Outros,
menos inteligentes que eu, são mais fortes. Talham melhor a sua vida entre
gente, administram mais habilmente a sua inteligência. tenho todas as
qualidades para influir, menos a arte de o fazer, ou a vontade, mesmo, de o
desejar.

Se um dia amasse, não seria amado.

Basta eu querer uma coisa para ela morrer. O meu destino, porém, não tem a
força de ser mortal para qualquer coisa. Tem a fraqueza de ser mortal nas
coisas para mim.


F. Pessoa,
sob o heterônimo de Bernardo Soares, em 18 de setembro de 1917

.
.

O que é verdade em nossos corações, é verdade. Não importa que os outros não saibam.

.
.

Há dias em que a respiração, cansada, parece parar. Lento perante a manhã de um dia imenso, penso qual é a relevância que existe em estar aqui. De um extremo ao outro sinto meus olhos percorrem o espaço em lapsos de tempo. Fragmentos. Ao recomeço do ciclo, contabilizo os cacos. Preciso de uma força não humana para ir em frente, por o sorriso nos lábios, o brilho nos olhos e caminhar. Mas vejo o fim da caminhada cada vez tão mais distante... minha vida se afasta da felicidade tanto mais quanto mais feliz quero ser. Há noites em que só queria deitar e sonhar, mas a angústia, maior do que a necessidade de dormir, acomoda-se para me manter desperto. Decerto será, em meus últimos instantes, a única companhia. Se soubesse orar, pediria que aqueles que amo respirassem felicidade e que meus dias fossem breves, tal e qual são breves as estações do ano.

Nem bem chegou o outono e novamente vejo as folhas que morrem sob a força inexorável do tempo. Esse mesmo tempo que, a cada dia, me deixa mais próximo do tempo em que viver não será mais necessário.

.

quarta-feira, 8 de junho de 2011

.

O homem por sobre quem caiu a praga
da tristeza do mundo, o homem que é triste
Para todos os séculos existe
E nunca mais o seu pesar se apaga!

Não crê em nada, pois nada há que traga
Consolo à mágoa a que só ele assiste
Quer resistir e quanto mais resiste
Mais se lhe aumenta e se lhe afunda a chaga

Sabe que sofre, mas o que não sabe
É que essa mágoa infinda assim, não cabe
Na sua vida, é que essa mágoa infinda

Transpõe a vida do seu corpo inerme;
E quando esse homem se transforma em verme
É essa mágoa que o acompanha ainda!

Eterna Mágoa, Augusto dos Anjos - in "Eu", Ed. do Autor, 1912

.


segunda-feira, 6 de junho de 2011

.

Madrugada gelada. Entregue à busca das razões da minha angústia, esqueci das horas. Era como se minhas mãos geladas tocassem o vazio e o vazio fosse, naqueles instantes que tornaram-se cansativos e intermináveis, meu ouvinte. E eu já não ouvia mais o silêncio que vinha da rua, a música praticamente abaixo do volume mínimo para não acordar o pesado sono dos outros, já não olhava para as luzes amarelas e brancas da área de serviço. Talvez já olhasse para algo que meus olhos, incapazes de absorver a imagem, simplesmente não vissem. São esses momentos, em que tudo transforma-se em escuridão e nada, que viver simplesmente perde sentido e que imploro para dormir. Se minha hora for agora, peço apenas para partir em um sonho, esse sonho com todas as cores, sorrisos e vidas que construí. Faço tudo o que posso para receber os novos dias com esperança de ter aquilo que construo em meus sonhos, os sonhos que não são apenas meus, mas não de todos, porque nem todos podem ou conseguem sonhar com o que sonho. E já quase posso tocar os pequenos dedos de um menino muito parecido comigo, um menino com os cabelos despenteados e uma curiosidade imensa... já quase posso segurar as mãos de uma menina linda, olhos grandes e cabelos negros muito lisos, que me convida a brincar em lugar no qual jamais estive...

muito, muito longe daqui.

.