terça-feira, 22 de abril de 2014

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A cada dia que passa, sinto como se a vida estivesse contra mim. Um inimigo mortal, inseparável e injusto, que sorri com os dias tristes que ponho, um a um, em uma conta que só conhece a soma das agruras. Na verdade sempre foi assim. A felicidade, observada à distância, faz parte da vida dos outros, jamais da minha. Procuro ser justo, faço tudo o que posso para que minha existência não mereça abandono ou castigo, mas continuo acumulando penalidades, pagas à exaustão, ora pela incompreensão alheia, ora pela injustiça dos comportamentos que a mim incluem sem me dizer respeito.

Se me resta lucidez para lidar com tudo o que me cerca, é porque faço uma força inacreditável para manter a sobriedade quando a maioria das pessoas perderia a cabeça. Dessa forma, meu equilíbrio não vem do medo da queda, do desespero frente ao colapso, mas da honestidade que preservo acima das falsidades e medos alheios. Pensem o que quiserem; a mim, basta que conheça a mim mesmo.

Não deposito em ninguém a esperança de ter dias felizes. Tampouco os espero. Isso não quer dizer que não os queira, como todos aqueles que desejam um sorriso sincero, alheio às cobranças e grades que nos cercam, pelos 4 cantos de nossa existência. Busco, em cada um que permito adentrar meu pequeno e complexo mundo, o melhor possível. Frio, analiso cada aspecto, palavra, comportamento. E não deixo, de forma alguma, que me imponham penalidades por seus erros. Pago apenas pelos meus, todas as horas de todos os dias.

Ser eu mesmo já uma espécie de castigo.

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segunda-feira, 29 de julho de 2013

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Há dias em que a respiração, cansada, parece parar. Lento perante a manhã de um dia imenso, penso qual é a relevância que existe em estar aqui. De um extremo ao outro sinto meus olhos percorrem o espaço em lapsos de tempo. Fragmentos. Ao recomeço do ciclo, contabilizo os cacos. Preciso de uma força não humana para ir em frente, por o sorriso nos lábios, o brilho nos olhos e caminhar. Mas vejo o fim da caminhada cada vez tão mais distante... minha vida se afasta da felicidade tanto mais quanto mais feliz quero ser. Há noites em que só queria deitar e sonhar, mas a angústia, maior do que a necessidade de dormir, acomoda-se para me manter desperto. Decerto será, em meus últimos instantes, a única companhia. Se soubesse orar, pediria que aqueles que amo respirassem felicidade e que meus dias fossem breves, tal e qual são breves as estações do ano.

Nem bem era outono e novamente vejo as folhas que morrem sob a força inexorável do tempo. Esse mesmo tempo que, a cada dia, me deixa mais próximo do tempo em que viver não será mais necessário.

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Se me pedissem para avaliar a importância das coisas [essas coisas todas às quais damos tanta importância] teria simplesmente pouco mais do que nada a dizer. E talvez o que dissesse seria, para a maioria, ininteligível. Mania boba essa de querer saber tudo, de conhecer o sentimento dos outros, saber a história dos outros, achando que a vida alheia pode, de certa forma, ser uma parte de nossas próprias vidas. Ainda que nossos erros sejam iguais, são diferentes porque não pertencem à mesma pessoa. Isso deve valer, também, para a felicidade, para a tristeza, para o azar ou sorte, para todo o resto. O que nos move adiante é o sentimento de saber que somos únicos, apesar de tão absurdamente iguais. Só falta lembrar disso.

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Repenso os dias tristes
as horas de remanso
as noites sem dormir
os dias sem descanso...


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Uma dica necessária: "remanso", aqui, entenda-se como aquela pequena porção d'água
que vai contra a correnteza. FYI

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segunda-feira, 1 de julho de 2013

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Pedi tão pouco,
e de uma forma tão humana
que achei que isso jamais iria acontecer;
pedi apenas que não fosse irresponsável
mas foi tudo o que conseguistes ser.

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sábado, 29 de junho de 2013

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É sempre a mesma história
a repetir-se em minha vida:
mais uma vez "adeus"
só mais outra despedida

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domingo, 23 de junho de 2013

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A despeito do barulho infernal, 
o que incomoda mesmo é o silêncio.

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sábado, 22 de junho de 2013

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Minha vida em 3D:
dias, decepções e desilusões.

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sexta-feira, 21 de junho de 2013

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"Vede, vede, é dia já… Vede o dia... Fazei tudo por reparardes só no dia, no dia real, ali fora... Vede-o, vede-o... Ele consola. Não penseis, não olheis para o que pensais... Vede-o a vir, o dia... Ele brilha como ouro numa terra de prata. As leves nuvens arredondam-se à medida que se coloram. Se nada existisse, (...) Se tudo fosse, qualquer modo, absolutamente coisa nenhuma?"

Fernando Pessoa, in O Marinheiro



Senti dores que não eram dores. Pela primeira vez, descobri a alegria de senti-las, e percebi que até a beleza dos sentimentos inexplicáveis podem ser traduzidos em sensações físicas, imprevisíveis e incontroláveis. Medo. De tudo. De sair, de sentar, medo da espera, medo de sentir medo, medo que a dor fosse um aviso. Ainda assim, fui atrás da razão das minhas dores. Trêmulo, segurei o copo entre as mãos, e entre olhar para o corredor e o relógio, não percebi que a dor passara. A ansiedade, o medo, a dor, viraram espera, os segundos viraram horas e as horas todas resumiram-se em um pequeno sorriso. Já não estava só. Hoje, dias depois de sentir  pela primeira vez as dores que não eram dores, de descobrir a alegria de senti-las e de perceber que até a beleza dos sentimentos inexplicáveis podem ser traduzidos em sensações físicas, imprevisíveis e incontroláveis, torno a estar sozinho. E não há mágoa ou revolta, apenas dúvidas. Muitas. Tantas quanto dura a noite em que não durmo, o horário do almoço em que não como, a tarde de trabalho na qual nada produzo a não ser mais dúvidas. Hoje, mais do que nunca, descobri como é ter saudade de algo que nunca tive. Que nunca vou ter. 

Nunca.
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quinta-feira, 20 de junho de 2013

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Não existe nada entre a hora escura e sol que nunca brilha. Apenas ausência.

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quarta-feira, 19 de junho de 2013

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Estou fazendo um review no blog, e talvez alguns textos desapareçam.
Ainda não sei se definitivamente ou por algum tempo apenas.

Obrigado.

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sexta-feira, 17 de maio de 2013

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Uma gota, depois outra. Sinto o sangue quente escorrer pelo rosto e vejo-o repousar delicadamente sobre o papel, desenhando formas, apagando pontos, vírgulas, desespero e desencontros. É tão tarde e eu pareço tão distante de tudo que imagino ser um sonho. Largo a caneta, mãos doloridas, bolhas de sangue. Sem notar, laudas e laudas preenchidas em letra minúscula, corrida, sufocada, desesperada. Nankin. Escuro como o sangue quente no rosto e no papel, como a noite turva e úmida. Negro como os sonhos que tenho. Não sei dizer nada sobre os sonhos, a não ser isso. São sonhos mesmo? Tenho dúvidas. Sonhos são para as pessoas boas. Gente como eu tem pesadelos. Pe-sa-de-los. Repito mais uma vez, para não esquecer. Uma cabeça inquieta, inconformada, perturbada. Não, não mereço sonhar. Vivo, aguardo o castigo. O próximo castigo. Cólica. Cada pontada parece rasgar a carne de dentro para fora, uma lâmina seca e cega, demorada, caprichosa e cruel. Engulo o comprimido pequeno, branco. Até a água é amarga. Lembro de quando era pequeno e minha mãe cuidava de mim nesses dias em que o corpo parece gritar. Os comprimidos eram doces. Não fossem, colocava açúcar e eu sorria porque tinha certeza que ficaria bem. Ficaria bem... já não sei o que é isso. Insônia, febre, cólica. Uma existência amarga, o sorriso esquecido num envelope negro. Tomo novamente a caneta entre os dedos, limpo o sangue do rosto, mudo de posição na cadeira. Por segundos o inferno em mim repousa, até que volte com força total. Recomeço a escrever, alternando as mãos. As bolhas estouram. Ambas. Linhas irregulares, sangue negro como o nankin. No papel a história se repete, mas não da mesma forma. A dor sempre aparece de maneiras diferentes. É assim mesmo, para que eu não me acostume, para que sempre sinta, a cada vez, de uma forma mais dura. Ouço a chuva lá fora, vejo a luz da rua borrada pela água depositada na janela. Vejo a janela borrada pela água depositada em meus olhos. Preciso dormir, descansar. Só assim consigo suportar tudo novamente. A luz da rua apaga. Está na hora.

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domingo, 12 de maio de 2013

Eu não devia estar ali, e é o muito que tenho a dizer. A pessoa errada, no lugar errado, na hora errada. Sempre assim. Quem sabe um dia eu me acostume. Um bom amigo diz que sou uma daquelas coisas ruins que acontecem para pessoas boas. Talvez ele esteja não apenas certo, mas coberto de razão. Parado, garrafa vazia na mão, olhar distante. Música alta, sono, cansaço. Eu não devia estar ali, nem perto. Passou por mim, casaquinho com corações vermelhos, olhos desenhados e sorriso diferente. Eu não devia estar ali para notar. Mas notei. E de repente não me importei de estar num lugar do qual não gosto, ouvindo músicas para mim detestáveis, assim como a maioria das pessoas naquele lugar onde eu não deveria estar. Depois de alguns minutos, me perguntava o que havia de errado com aquela pessoa incrível — porque procuro o pior nas pessoas para ter razão para me afastar delas e deixá-las para trás — só que não encontrei. Já era tarde. Deixei-a em casa, sensação estranha. Vazio. Tive vontade de voltar, mas não voltei. Depois tive vontade de convidá-la para um café, mas não o fiz. Lembrei de que sou aquela coisa ruim que acontece para pessoas boas. Desde aquele dia não sorri. O vazio permanece. Espero que ela esteja feliz.

terça-feira, 2 de abril de 2013

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Vejo-a sem forma e cores, inconformado. Nunca mais pude olhar seu rosto, e hoje já me esqueço como são seus traços, seus olhos, a forma como fala, como caminha; já não me lembro qual a cor preferida para o esmalte, qual combinação de casaco e sapato me faziam sorrir, nem o sabor do prato preferido no restaurante que eu mais gostava. Aos poucos a vida vai perdendo as cores, a memória fraca, aliada ao esforço brutal para tudo esquecer, transformar em nada mais, nem menos. Só que nada permanece igual, mesmo que eu queira. Sequer sou o mesmo, e talvez pouca coisa lembre quem realmente sou. 17 quilos a menos, braços e pernas mais fortes do que nunca, alguns poucos cabelos brancos, jeans pretos, tênis azuis ou vermelhos. Lembro que gosto de cores, mas hoje elas são apenas uma referência nas caixas e nas tabelas que uso para trabalhar. Trabalho com cores, você lembra? Talvez, melhor, quase certeza, de que não. Vírgulas, muitas. O que faço é de pequena importância, o que sou é de mínima importância, quem quero ser já não importa. Já não sei escrever, ou já não sei ser linear no que escrevo. Cada vez que busco a caneta e uma folha de papel kraft milhões de coisas passam, voam, caem e despedaçam, depois se reerguem, numa reconstrução ora torta, ora heróica. O dia me deixa desperto, a noite me mantém acordado. A-cor-da-do. Durmo pouco por noite, muito pouco, faço muita força. Para ser, para estar, para sorrir, para agir. Para dormir também. Lá fora chove mais uma vez. Aqui  acompanho, por vezes imóvel, as pequenas gotas d'água que escorrem pela janela. Vez ou outra elas não chegam a tocar o vidro, vindas de trás da casa. Perdi a noção, norte, sul, não sei. A mesma música toca pela quinta ou sexta vez, sei a letra mas não consigo recordar o nome. Murder me... tocou no dia em que fui de carona para fora de algum lugar. A flor no painel, não sei de qual cor era. Era verdadeira? Apenas duas esquinas, 3 quarteirões, sorri e chorei. Chorei de felicidade, sorri de alívio, de satisfação. Depois chorei muito mais de tristeza, de arrependimento, de dor. E não sorri mais. Não mais da mesma forma. Talvez pela dor, pelo medo, pelo receio, por achar que não mereço. Mais uma linha, duas, tantas. Tantas quantas consigo preencher. Mãos doloridas por segurar a caneta, olhos doloridos. Força e fraqueza. A vida se arrasta, sorrateira, consumindo, aos poucos, o pouco tempo. Começo um novo livro assim que o anterior se esgota. Amargo. Vermelho. Triste. Você sabe? Talvez não saiba. Domingo era páscoa, mudei um pouco a direção e fui parar no parque. Elas estavam lá, uma família muito maior reunida, cuidadosas como sempre. Há tempos que não as visitava. E de repente tudo ficou turvo, pelo rosto um suor amargo, a boca seca, lágrimas nos olhos. Deixei-as onde estavam, em paz, delicadas e lindas. Não posso ter lembranças, elas são brutais. Mais um dia, menos um dia. Na brincadeira de esconde-esconde fui encontrado pela tristeza, não consegui encontrar a felicidade e a brincadeira terminou mais cedo. Todos para dentro, está escuro. Para mim sempre esteve escuro. Há esse muro em volta, e arrebento as mãos e braços na ânsia desesperada de derrubá-lo. Não queria um muro só meu, não queria esquecer, não queria querer. Por hora é isso. Está tarde/cedo, hora de ficar acordado, pois os olhos não param, não dão descanso. Lá fora já está tudo quieto. Acho que é madrugada...

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segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

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Não sinto apenas o frio do clima, mas também o frio que vem das pessoas e das coisas. Sob um céu hoje repleto, na medida do possível, de estrelas, fecho os olhos e tento imaginar outro lugar.

O lugar que imagino tem estrelas diferentes. Tem frio, pessoas e coisas, mas elas pensam e são de uma forma diferente. E olham para as mesmas estrelas para as quais olho, também de uma forma diferente.

Indiferente a tudo isso, não deixo de olhar as estrelas, sentir o frio e imaginar um outro lugar, já diferente do que outrora imaginava. E a cada vez que imagino um novo lugar, um novo mundo ganha vida e forma. E uma nova forma ganha cor e morte. E nasce um novo sonho, que morre em uma outra vida.

Felizes são os que não olham para o céu.

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Duas horas, três, quatro. Horas que passam lentas, enquanto anoto à caneta verde sobre papel pólem 90g algumas frases com as quais sonhei. Sonhei? Nariz sangrando, dores. Dores fortes. Levanto, limpo o rosto, deito novamente. Luz acesa. 14 novos livros empilhados. Três são lidos quase que ao mesmo tempo. Um capítulo de cada, alternadamente. Design (de uma forma geral), Arte e Antroposociologia. Coca Cola (na garafa PET, quase congelada), água na garrafa azul de alumínio. Na velha garrafa azul de alumínio. A nova garrafa azul de alumínio, quase intocada, repousa na caixa lacrada dentro do armário fechado à chave que eu não tenho, acompanhada de alguns livros, brinquedos, cartas, poesias, casacos.

A garrafa azul - a velha - traz boas lembranças. Lembro-me, por exemplo, da mochila pesada, suor no rosto, cansaço. A vida cotidiana, plena de estranhas situações, dando lugar à necessidades básicas, instintivas. A pequena velha garrafa azul de alumínio, talvez já nem tão azul em sua pintura brilhante desgastada, aberta calculadamente de tempos em tempos; Racionalidade, por vezes, suplantando a necessidade, a sede.

Hoje, e não de forma calculada, mas aleatoriamente, abro as duas garrafas. Não aleatoriamente abro os livros, um de cada vez, um capítulo de cada vez. Design (de uma forma geral), Arte e Antroposociologia. E a sequencia mudará apenas quando um dos livros terminar e der lugar a um outro livro, também novo. Ainda não sei qual dos três livros terminará antes dos demais. Não conto as páginas. Não me importa saber o futuro. Não me importa sequer saber sobre o próximo segundo, mesmo porque o próximo segundo já é, sobremaneira, uma forma de paradoxo. Um futuro que imediatamente torna-se passado.


Calmamente levanto. Camiseta branca e calça xadrez (vermelha). Frio. Pés no chão, sentindo o piso gelado. Água gelada no rosto quente. Mãos frias, a mesma dor. Os mesmos livros. Novos pesadelos.

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Distantes, desantentos
assim são os sonhos
de quem a todo tempo
acusadoras vozes escuta.

Se em Deus acreditasse
quem sabe rezaria
para que doce fosse a vida;
não bruta.

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Por enquanto tudo o que tenho é silêncio...

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Madrugada na cidade cinza... daqui é possível ouvir o silêncio, inclusive. E eu que achava que as pessoas dormiam cedo demais descobri que, na verdade, sou eu que não durmo. Tenho medo de sonhar. Logo eu que despeço-me sempre desejando bons sonhos. E já é tarde para dormir.

Espero que não seja tarde demais.

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Atravessei a rua sem olhar para os lados. Duas pistas, movimento, luzes. Ouvi freadas, palavrões, gritos. E não vi nada. Absolutamente nada. Sei que alguém me seguiu, já na calçada, aos berros. Mas nem olhei para trás, nem parei. Na próxima esquina, a mesma coisa. E na próxima, e na outra da mesma forma. E também em todas as outras. Não tirei as mãos dos bolsos, a mochila das costas, os olhos do chão. Dos olhos não tirei as lágrimas, do coração as dores, da cabeça as dúvidas. E duvidava que chegasse em casa, na casa que não é minha. Não parei quando começou a chuva. Mas vi quando ela parou. E passei reto em mais um semáforo, sem sequer ver a cor. Naquele pequeno mundo nem existiam cores. Preto e branco, claro e escuro. O claro foi-se, ficou só escuro. E já não posso ver mais nada.

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A felicidade é distante para quem olha-a de longe.

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Eu sinto essa vontade de ir embora, esse desejo estranho de deixar tudo sem sequer olhar para trás, como se fugisse sei lá de que. Nunca fiz parte de nada, nunca fui parte de coisa alguma, ainda que me achasse um todo, de certa forma... tudo o que fiz foi assistir, perplexo, a tudo ir embora, deixando comigo apenas o gosto amargo daqueles dias que jamais retornam, levando a esperança que um dia eu tive de, pelo menos uma vez, ser completo. De qualquer forma, enquanto alguns sonham, outros, teimosos, lutam. Agradeço por ter nascido teimoso.

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"Eu quis tanto ser a tua paz, quis tanto que você fosse o meu encontro. Quis tanto dar, tanto receber. Quis precisar, sem exigências. E sem solicitações, aceitar o que me era dado. Sem ir além, compreende? Não queria pedir mais do que você tinha, assim como eu não daria mais do que dispunha, por limitação humana. Mas o que tinha, era seu."

Caio Fernando Abreu

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Não sei se eram visões ou outro sonho apenas
mas acordei tão frio, aos pés de um campo imenso
caixão de sândalo, silêncio, carruagem de mecenas
um féretro regado a dor e incenso

Então abri meus olhos, pude vê-la
estava ali, tão perto, parada entre o futuro e a história
Apertava contra o peito um livro branco
presente cheio de passado, solidão, memória

De repente aproximou-se [e se deteve]
e foi o silêncio que deixou transparecer
que novamente estava eu pronto a ouvir
enquanto ela, abraçada ao livro, não sabia o que dizer

E assim partiu a carruagem
levando embora o sonho, a dor, a paz
Queria ela que eu estivesse bem, sem entender
que na verdade, eu, já não restava mais...

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— Tudo o que os símbolos escritos podem dizer já passou. Eles são como pegadas deixadas por animais. Essa é a razão pela qual os mestres da meditação recusam-se a aceitar que os escritos sejam definitivos. O objetivo é atingir o ser verdadeiro por meio dessas pegadas, dessas letras, desses signos - mas a realidade mesma não é um signo, ela não deixa pistas. Ela não chega a nós por meio de letras ou palavras. Nós podemos ir até ela seguindo letras e palavras até o lugar de onde vieram. Mas enquanto estivermos preocupados com símbolos, teorias e opiniões, não conseguiremos alcançar seu princípio.
— Mas abdicar de símbolos e opiniões não nos deixa no vazio absoluto do ser?
— Sim.

KIMURA KIUHO, Kenjutsu Fushigi Hen
[Dos mistérios da arte da espada],
1768

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Estava ali quando cheguei. Imóvel, tal e qual uma estátua que a tudo observa. Sempre fica mais forte quando me aproximo. Era para ser como um farol, um ponto de conforto, de esperança, mas não. Apenas me olha, como se reprovasse tudo o que faço, tudo o que sou, tudo o que quero e espero. Sempre que chego, cedo ou tarde, está ali. E sabe que eu não deveria estar ali, no lugar que não é meu. Ninguém me espera no lugar que não é meu. Nada espero do lugar que não é meu. Sequer espero que ela vá embora, definitivamente... essa luz que não me deixa dormir.

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Sem produzir som algum, abriu a porta. Já nem sei se era sábado, domingo, segunda. Já nem importa mais o dia e a hora. Apenas sei que veio e me encontrou ali, deitado entre livros, canetas, cadernos. Quando vejo-a já nem me assusto mais. Apenas aceno sutilmente com a cabeça e permito que se aproxime. Inquieto, não tiro os olhos do relógio. Calma, ela apenas me observa. É parte de mim, e não a recrimino se simplesmente sente-se tão à vontade que já nem faz questão de ir embora. Parte de mim, e uma vez que é parte de mim, escrevo várias cartas para ela. Quando todos foram razão para desespero e decepção, a companhia dela fez-se mais forte, mais viva e mais presente. Está comigo onde quer que eu esteja, tranquila, calma e silenciosa. Juntos assistimos ao lento despertar de horas mortas. E somos apenas nós a caminhar sob as fracas luzes quando os outros todos já sonham, despreocupados. E enquanto eles sonham, por vezes acordados, permanecemos nós aqui, olhos abertos, olhando para um passado que não volta mais. Hoje, minha vida olha para mim de fora...

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Há dias em que parece que tudo o que resta são migalhas, míseras continuações de histórias descontínuas, que inventamos sem imaginar o prejuízo que causam agora ou causarão mais tarde. Quando você diz que meus textos parecem continuações, penso que, de uma certa forma, cada linha tem razões semelhantes.

Hoje não espero chegadas. Apenas partidas. Não necessito de glórias, e melhor seria se pudesse apagar histórias. Sério, sorrio, mas em cada passo há feridas. Sei que posso suportar a dor, as memórias... e pelos caminhos que ando, também as balas perdidas.

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Vida
é tudo aquilo que há

[en] frente

o resto é instante
que ganhamos de presente

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Hoje vou tentar dormir, quero um pouco de silêncio;
solidão, essa eu tenho de sobra.

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Os textos que hoje escrevo
[a grande maioria]
são cartas de adeus
minhas mais sinceras linhas.

Para vocês, eu deixo o silêncio.
A angústia e as dores
essas levo comigo,
não vou dividir com ninguém;

são minhas.

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Tento escrever
não há palavras;
tento dormir
não tenho sono.
Preciso entender
mas não consigo;
quero esquecer
tenho memória...

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Sorrio quando preciso. No resto do tempo permaneço igual. Não busco motivos ou razões. Espero-as. E enquanto espero-as, faço o melhor que posso. Mas sinto que não posso fazer muito, além de oferecer o que há de humano em mim. Só que o humano em mim parece pouco, insuficiente, inútil. E novamente deito para um pesadelo acordado. No escuro do pequeno quarto morrem as sombras do dia que se foi.

Há dias em que eu gostaria de que só existisse noite.

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Ainda bem que as estrelas que guardei em escuros envelopes de papel não me impediram de olhar para o céu.

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As coisas que morrem são formadas de adeus. Desde o nascimento até o momento da partida, é como se tudo jamais sequer pudesse ter sido. Tenho da vida a impressão de que tudo é terminal e incompleto. Histórias, vidas e encontros predestinados a não acontecer. Enquanto olhamos o passado buscando alguma forma de redenção, perdemos um presente e, de fato, para nós nada importa. E quem somos, ao final de um dia tedioso de fim de inverno, sentados a olhar para um mundo ao qual não pertencemos? Há dias em que tenho a impressão de ter morrido não para este mundo, mas a sensação de jamais ter nascido para mundo algum.

Hoje crio novas histórias na ânsia de destruir um passado incômodo, de curar uma dor de cabeça que jamais cessará enquanto o que resta da minha vida não se torne um completo vazio. Sentido para que? Quais verdades carregam minhas palavras sem sentido? As minhas verdades apenas? Não olho para o lado, me incomoda a presença alheia, mas não sou capaz de me concentrar sozinho. Ouço uma voz conhecida mas não me atrevo a olhar em sua direção. Olhos dispersos no papel vermelho. Tenho medo de que a voz que ouço seja apenas isso: uma voz tão sem sentido quanto todas as minhas palavras, minhas vidas e memórias. Não tenho glórias, e as histórias que conto não tem fim nem começo.

Sou assim, a falta de tudo.

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Apenas peço para que eles não falem comigo. Quero ficar só. Hoje não haverá poesia, somente a chuva que esgota a possibilidade de vislumbrar estrelas. Olho para a noite escura e sinto uma tristeza tão forte que chega a doer fisicamente, uma dor para a qual remédio já não há. E não sinto apenas dor. Sinto como se minha vida já não mais me pertencesse...

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Luzes no final do corredor vazio. Com cuidado, vou em sua direção. A luz que vejo pode ser vista somente pela moldura da porta trancada, e já não conheço o lado de lá. Quanto mais me aproximo, mais fraca ela fica, como se minha busca escurecesse o mundo. O meu mundo. Sei que não pertenço ao mundo dos outros, onde brilha a luz que não alcanço e que de mim apenas se afasta. Vez ou outra há, subitamente, um clarão intenso. Acordo de um pesadelo e já não consigo saber se dormia ou não. Lá fora alguém sorri. Parece que há vida atrás da porta, mas não aqui. No lugar em que estou não há nem vida, nem sorrisos. Somente a busca que jamais termina, dentro do corredor que só faz aumentar a distância entre mim e a luz. A luz que eu não tenho, a luz que para mim não brilha.

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Madrugada lá fora. Aqui dentro, uma angústia que não me deixa dormir...

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Paredes vazias. Ontem, depois de muito tempo, tirei o quadro. Agora, ao abrir os olhos durante a madrugada, há apenas um espaço onde antes havia uma lembrança. E o espaço onde antes havia uma lembrança ficou assim, tomado de vazio. Tomado de vazio também, olho para o espaço que ficou. Sempre acordo de madrugada, como agora. Abro meus olhos também vazios, levanto e vou em direção à janela. Há quem diga que em vão espero vê-la novamente. Olhando para fora meus olhos se perdem num escuro interminável. Minha vida passa, e já não consigo enxergar...

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Vieram logo cedo. Em pé, de frente para a janela, eu já os esperava. Sabia que chegariam pela manhã, cedinho. E quando chegaram já encontraram tudo pronto e organizado. Eram várias caixas, e não foi sem um bom tanto de trabalho que colocaram tudo em uma van e levaram embora. Eram caixas e caixas de histórias, recordações, memórias. Poesia e prosa, alegria e tristeza.

Quem sabe em sua nova casa, as histórias, mesmo aquelas tristes, encontrem felicidade em novos olhos, olhos com vontade de descoberta. Quem sabe o encantamento das letras que tanto me cativaram encontre alguém com tanta vontade de descobrir o que há além das barreiras quanto eu. Cuidadosamente separados, personagens importantes e desimportantes, principais e coadjuvantes, felizes, infelizes, lugares próximos e distantes, paisagens reais e inventadas, reproduzidas ou criadas por aqueles que tanto se esmeraram em nos contar o que viram ou imaginaram, aqui ou acolá.

Vieram logo cedo, e eu sabia que viriam logo cedo, por isso nem dormi. Não queria deixá-los esperando. Eram caixas e caixas... pesadas caixas de madeira, dessas que outrora guardavam importantes peças de um imenso quebra-cabeças de metal e policarbonato.

O carro vai embora. Dentro dele, além de personagens importantes e desimportantes, principais e coadjuvantes, felizes, infelizes, lugares próximos e distantes, paisagens reais e inventadas, reproduzidas ou criadas, felicidade.

Não sei ao certo que dia era, só lembro que chovia bastante, mas eles estavam todos protegidos. E com certeza continuarão assim em sua nova casa. Quem sabe eu vá visitá-los hora ou outra. Na volta para o quarto, mais silêncio do que nunca. Paredes brancas, estantes vazias. Minimalismo e solidão. Assim foi o dia em que doei todos os meus livros.

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Se hoje resisto ao tempo, é porque o vento leva com ele minhas lembranças. Alívio efêmero para uma dor que nunca termina. Mas hoje não quero escrever, tampouco fazer rima. Estancar o sangramento já dá um trabalho imenso...

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Acreditei em tudo o que me disseram. Sempre. Se me dissessem que me atirasse ao abismo, faria-o sem pensar duas vezes. Uns chamam a isso de estupidez. Para mim, trata-se apenas de confiança. Acreditei em tudo o que me disseram. E me disseram muita coisa. E lembro de cada coisa, exatamente em seu momento na história da minha vida. Paisagens congeladas, instantâneos cheios de sorrisos e que hoje já não mais possuem brilho ou glória. Continuei acreditando em tudo o que me disseram.

Acreditei que aquele filme era bom, que o café era excelente, e que aquela seria a torta de banana mais espetacular da minha vida. Disseram, também, que se eu mantivesse os pés mais próximos manteria o equilíbrio mais facilmente. E quando aos trancos fiquei em pé, me disseram para eu confiar e assim não cairia. E não caí. Dessa forma, continuei acreditando. Mantenho os pés mais próximos e deslizo firme e rapidamente, mas não sei em qual direção. Me disseram muita coisa, mas precisei aprender sozinho como é continuar sozinho. Aprendi por conta como é chorar em silêncio, com um sorriso falso no rosto. E então me dei conta de que, sem querer, me ensinaram a mentir.

Me ensinaram, de uma forma torta, que eu deveria fazer qualquer coisa para que tudo que me disseram desse certo. Ou talvez eu mesmo tenha aprendido da forma errada. Ainda com os tropeços, não deixei de acreditar em tudo que me disseram. Mas escondi coisas, me escondi. Me anulei, abandonei, acreditei nos versos de Octavio Paz, que me diziam a todo instante que "para ser, deveria ser do outro, sair de mim, buscar-me entre os outros". Acreditei errado. Quando imaginei estar um passo adiante, acreditando em tudo o que me disseram, andava para trás, abria um palmo a mais na terra.

Acreditei em tudo o que me disseram, fiz o meu melhor, da forma como consegui, ainda que fosse inválido para a maneira dos outros de fazer as coisas. Não foi a toa que fiz versos, escrevi cartas, sentei e aguardei horas em um banco desconfortável em um lugar do qual nunca gostei. Não foi a toa que guardei estrelas, que chorei, que sorri. Cada passo que dei foi, simplesmente, porque acreditei em tudo o que me disseram. E me disseram que era para sempre. Disseram, também, que nunca mudaria. E acreditei que eu teria uma casa na colina, com vidros verdes. Acreditei que teria um labrador caramelo, e que ele cuidaria, junto comigo, da minha família. A família que eu escolhi.

Construí meus sonhos acreditando em tudo que me disseram; sonhos que jamais sonhara. Hoje, quando fecho os olhos, recupero a memória daquele dia em que me disseram que tudo pode mudar. E se me disserem que me atire ao abismo, uns continuarão chamando a isso estupidez. Para mim, nada mudou. Porque eu acredito em tudo o que eu disse.

Sim, eu sempre acreditei em tudo o que me disseram. E também acreditei quando disseram "adeus".


Rio Gallegos, Argentina. Dois mil e alguma coisa

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Há dias em que choro, de verdade.
Na maior parte do tempo, minto:
sempre que sorrio.

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Não me diga nada
e ouviremos

[sós]

a dor que silencia
escrevo à noite todas as tristezas
pois sei que tu lerás de dia

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Em outras palavras, eu sou três. Um homem fica sempre no meio, despreocupado, sem se emocionar, observando, esperando que lhe permitam expressar o que ele vê para os outros dois. O segundo homem é como um animal assustado, que ataca por medo de ser atacado. E, então, há uma pessoa gentil e superamorosa que acolhe as pessoas no templo mais sagrado do seu ser, aceita insultos, confia, assina contratos sem ler, cai na conversa dos outros e acaba trabalhando barato ou de graça, e quando percebe o que lhe fizeram tem vontade de matar e destruir tudo ao seu redor, inclusive a si mesmo, por ter sido tão estúpido. Mas não consegue, e retorna para dentro de si mesmo.

— Qual deles é real?

São todos reais.

in Beneath the Underdog: His World as Composed by Mingus,
Vintage Books, Setembro, 1991. ©Charles Mingus & Nel King

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Dorme.
Que a noite traga o bem que eu não te trouxe,
que o dia venha rubro de alegria,
que venha um novo amor a contemplá-la
para acompanhá-la aonde eu não podia.

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Meus sonhos são em preto e branco
mudo o caminho pra não vê-la que é pra desviar das dores
e apesar de viver quieto no meu canto
a minha vida não tem paz;

Nem cores.

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As impressões que tenho do mundo são diferentes. Olho para tudo com uma justiça que nunca cheguei a conhecer para mim. Dessa forma, questionam eles como é possível sobreviver calado enquanto observo os sonhos meus tornarem-se pesadelos, dor e angústia, um após o outro, em uma sucessão de acontecimentos e desacontecimentos. Nunca haverá uma resposta pronta. Lembro apenas de que, à medida das possibilidades, procuro me abrigar no escuro de meus pensamentos, no opaco dos olhos que não brilham, na imensidão abstrata do silêncio. É assim que, aos poucos, vou apagando o que dos outros há em mim para voltar a ser apenas o que jamais deveria ter deixado de ser. É assim que vou lenta e dolorosamente retornando ao mundo do qual jamais deveria sair.

Ao mesmo tempo, penso que sentir talvez seja uma experiência dolorosa e ao mesmo tempo necessária. Prova que, apesar da noite negra e quieta estou, de alguma forma, vivo. E é assim, vivendo essa desesperança cotidiana que preencho linhas e linhas de desmemórias, sonhos terminados, felicidade abortada. É assim que deixo o registro de tudo o que me causa ânsia, de tudo o que me desperta o desejo de correr para outra direção. A clareza de minhas ações permanece no silêncio conturbado de uma batalha interna que travo a todos os instantes. Há dias em que guardo para mim o desejo de sorrir. É então que descubro que um sorriso completo é algo que não me pertence.

Nunca.

À memoria de tudo que, para mim, morreu.

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Lembra de quando, mãos dadas, rezávamos por ter medo de morrer dormindo? E se eu te contar que depois daqueles dias nunca mais rezei? Que talvez eu estivesse ali, repetindo aquelas palavras todas, porque tu estavas comigo? E sim, é fato: não sei mais rezar. E não é porque perdi a fé. Essa eu nunca tive.

Perdi o medo.

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terça-feira, 13 de novembro de 2012

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Já não há céu, nem chão. As horas, incontáveis, tortura em dias intermináveis, a lembrança sinistra do nada mais adiante. Viver sem haver depois, como se cada segundo fosse não o último, mas que sequer devesse ter existido. Já não há cores, nem tons. Já não há música, nem silêncio. Só o grito preso, sufocado, suprimido, engolido a seco. Já não há ter, nem ser. E nem vontade, nem desejo, nem ódio ou desprezo. Nem há rancor. Apenas uma vida que se arrasta, um banho de chuva fria, de noite morna. A repetição de dias inteiros, curtos demais, longos demais, quentes demais. Iguais demais. Todos os dias.

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segunda-feira, 8 de agosto de 2011

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"Quando nada acontece, há um milagre que não estamos vendo."

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sábado, 2 de julho de 2011

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"A decepção não passa de baixeza. Se tu amaste um certo não sei quê no homem, que importa haver no mesmo homem outra coisa que te desagrada? Mas tu, não senhor; transformas logo a seguir em escravo quem amas ou quem te ama. Se ele não assume os encargos dessa escravidão, condena-lo."

Antoine de Saint Exupéry, in Cidadela, França, 1936

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sexta-feira, 1 de julho de 2011

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Há um vento gelado que entra por debaixo da porta trancada. Imóvel, apenas sinto o frio que aos poucos enregela o corpo. Desgastado, cansado, cabeça sepultada entre o travesseiro e o escuro. Os olhos — aos poucos — identificam os contornos de quatro paredes de concreto estéril. Quatro linhas desvendadas ainda que sob a total ausência da luz. E na imensidão do silêncio ouço, finalmente, um coração bater. Respiro lentamente...

Estou vivo.

Momentos passam, e um tempo raso vem deixar um rastro de dor em alguém já tanto massacrado por todos os erros. Sozinho, luto para acertar cada passo. Em meus pensamentos, tento segurar suas mãos e colocar o amor que tenho em tudo o que faço. Só que a recusa, o silêncio e a escuridão negam o brilho dos olhos, também a certeza de um outro dia. As mãos do castigo açoitam e retalham a alma. Fecho os olhos.

E se mantenho-me vivo, é por pura esperança de que você sorria.

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terça-feira, 14 de junho de 2011

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429

Em todos os lugares da vida, em todas as situações e convivências, eu fui
sempre, para todos, um intruso. Pelo menos, fui sempre um estranho. No meio
de parentes, como no de conhecidos, fui sempre sentido como alguém de fora.
Não digo que o fui, uma só vez sequer, de caso pensado. Mas fui-o sempre por
uma atitude espontânea da média dos temperamentos alheios.

Fui sempre, por toda parte e por todos, tratado com simpatia. A pouquíssimos,
creio, terá tão pouca gente erguido a voz, ou franzido a testa, ou falado alto ou
de terça. Mas a simpatia, com que sempre me trataram, foi sempre isenta de
afeição. Para os mais naturalmente íntimos fui sempre um hóspede, que, por
hóspede, é bem tratado, mas sempre com a atenção devida ao estranho, e a
falta de afeição merecida pelo intruso.

Não duvido que tudo isto, da atitude dos outros, derive principalmente de
qualquer obscura causa intrínseca ao meu próprio temperamento. Sou
porventura de uma frieza comunicativa, que involuntariamente obriga os
outros a reflectirem o meu modo de pouco sentir.

Travo, por índole, rapidamente conhecimentos. Tardam-me pouco as simpatias
dos outros. Mas as afeições nunca chegam. Dedicações nunca as conheci.
Amarem, foi coisa que sempre me pareceu impossível, como um estranho
tratar-me por tu. Não sei se sofra com isto, se o aceite como um destino
indiferente, em que não há nem que sofrer nem que aceitar.

Desejei sempre agradar. Doeu-me sempre que fossem indiferentes. Órfão da
Fortuna, tenho, como todos os órfãos, a necessidade de ser o objecto da
afeição de alguém. Passei sempre fome da realização dessa necessidade. Tanto
me adaptei a essa fome inevitável que, por vezes, nem sei se sinto a
necessidade de comer.

Com isto ou sem isto a vida dói-me.

Os outros têm quem se lhes dedique. Eu nunca tive sequer pensasse em se me
dedicar. Servem os outros: a mim tratam-me bem.

Reconheço em mim a capacidade de provocar respeito, mas não afeição.
Infelizmente não tenho feito nada com que justifique a si próprio esse respeito
começado quem o sinta; de modo que nunca chegam a respeitar-me deveras.
Julgo às vezes que gozo sofrer. Mas na verdade eu preferia outra coisa.
Não tenho qualidades de Chefe, nem de sequaz. Nem sequer as tenho de
satisfeito, que são as que valem quando essas outras faltem. Outros,
menos inteligentes que eu, são mais fortes. Talham melhor a sua vida entre
gente, administram mais habilmente a sua inteligência. tenho todas as
qualidades para influir, menos a arte de o fazer, ou a vontade, mesmo, de o
desejar.

Se um dia amasse, não seria amado.

Basta eu querer uma coisa para ela morrer. O meu destino, porém, não tem a
força de ser mortal para qualquer coisa. Tem a fraqueza de ser mortal nas
coisas para mim.


F. Pessoa,
sob o heterônimo de Bernardo Soares, em 18 de setembro de 1917

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O que é verdade em nossos corações, é verdade. Não importa que os outros não saibam.

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Há dias em que a respiração, cansada, parece parar. Lento perante a manhã de um dia imenso, penso qual é a relevância que existe em estar aqui. De um extremo ao outro sinto meus olhos percorrem o espaço em lapsos de tempo. Fragmentos. Ao recomeço do ciclo, contabilizo os cacos. Preciso de uma força não humana para ir em frente, por o sorriso nos lábios, o brilho nos olhos e caminhar. Mas vejo o fim da caminhada cada vez tão mais distante... minha vida se afasta da felicidade tanto mais quanto mais feliz quero ser. Há noites em que só queria deitar e sonhar, mas a angústia, maior do que a necessidade de dormir, acomoda-se para me manter desperto. Decerto será, em meus últimos instantes, a única companhia. Se soubesse orar, pediria que aqueles que amo respirassem felicidade e que meus dias fossem breves, tal e qual são breves as estações do ano.

Nem bem chegou o outono e novamente vejo as folhas que morrem sob a força inexorável do tempo. Esse mesmo tempo que, a cada dia, me deixa mais próximo do tempo em que viver não será mais necessário.

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quarta-feira, 8 de junho de 2011

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O homem por sobre quem caiu a praga
da tristeza do mundo, o homem que é triste
Para todos os séculos existe
E nunca mais o seu pesar se apaga!

Não crê em nada, pois nada há que traga
Consolo à mágoa a que só ele assiste
Quer resistir e quanto mais resiste
Mais se lhe aumenta e se lhe afunda a chaga

Sabe que sofre, mas o que não sabe
É que essa mágoa infinda assim, não cabe
Na sua vida, é que essa mágoa infinda

Transpõe a vida do seu corpo inerme;
E quando esse homem se transforma em verme
É essa mágoa que o acompanha ainda!

Eterna Mágoa, Augusto dos Anjos - in "Eu", Ed. do Autor, 1912

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segunda-feira, 6 de junho de 2011

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Madrugada gelada. Entregue à busca das razões da minha angústia, esqueci das horas. Era como se minhas mãos geladas tocassem o vazio e o vazio fosse, naqueles instantes que tornaram-se cansativos e intermináveis, meu ouvinte. E eu já não ouvia mais o silêncio que vinha da rua, a música praticamente abaixo do volume mínimo para não acordar o pesado sono dos outros, já não olhava para as luzes amarelas e brancas da área de serviço. Talvez já olhasse para algo que meus olhos, incapazes de absorver a imagem, simplesmente não vissem. São esses momentos, em que tudo transforma-se em escuridão e nada, que viver simplesmente perde sentido e que imploro para dormir. Se minha hora for agora, peço apenas para partir em um sonho, esse sonho com todas as cores, sorrisos e vidas que construí. Faço tudo o que posso para receber os novos dias com esperança de ter aquilo que construo em meus sonhos, os sonhos que não são apenas meus, mas não de todos, porque nem todos podem ou conseguem sonhar com o que sonho. E já quase posso tocar os pequenos dedos de um menino muito parecido comigo, um menino com os cabelos despenteados e uma curiosidade imensa... já quase posso segurar as mãos de uma menina linda, olhos grandes e cabelos negros muito lisos, que me convida a brincar em lugar no qual jamais estive...

muito, muito longe daqui.

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sexta-feira, 20 de maio de 2011

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Eu já conheço a vida de outras lidas,
de tantas outras histórias,
dias, noites, memórias
também conheço a vida de outras vidas.

Mas não conheço a paz dos outros tempos...
não mais brisas, hoje os ventos mais ferozes,
corredeiras entre mares a transportar
aqui, ali, a qualquer lugar
minhas angústias, minhas dúvidas, minhas vozes

E enquanto o mar de novo traz
a tristeza que mandei partir
sem saudade, ódio, revolta
olho em mim, vejo em volta
envolvo-me de novo com o escuro
equilibro-me inconstante obre o muro
se eu cair
Deus
ajuda-me a levantar?

Ou
se não for pedir demais
os ventos, mares, montes
cidades, cercanias, horizontes
por favor, feche meus olhos
se não posso mais querê-los
eu peço para hoje me levar
onde não há dor que viva entre céu e mar
e que nos sonhos
meus filhos
quem sabe eu possa vê-los
antes que o novo dia nasça
para tirar o brilho dos meus olhos
para pintar de branco meus cabelos

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sexta-feira, 27 de novembro de 2009

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I can’t see into the valley, because the fog only allows me to see about hundred meters of a greyish whiteness and when it starts snowing again the “panorama” becomes even smaller. It keeps snowing and it seems like it will never stop.

Every time i move in my moist clothes i am reminded of the terrible cold eating into my bones and i am so exhausted i can’t even shiver from it. Shivering would warm me up for a second or two, but i can not afford to loose any more strength, not even for keeping myself warm, because every additional move took away my chances of staying alive … and i wanted to live, if only for another day. That is how my every day looked; day after day, night after night …

How long do I have left – the eternal question? How long can I keep this up? How long?

In my uninterrupted string of thought i was looking for hope, hopeless hope, looking for answers, a meaning, a message, a revelation … and when i have once again asked myself every question and rethought every thought, I “shutdown”, some big breaths and i am gone to a world where there is no time or space, no pain, no thoughts and no revelations … i fell asleep. Opening the zipper of my sleeping bag to a new morning … with anxiety in my heart, not allowing myself to take a fast glance around … “No, nooooooooo!!!” The pain takes all my hopes away…again fog, humidity and snow all around me … i can’t feel my legs! Like two frozen logs, just lying there, not moving, like they are not even a part of me, like all this is happening to someone else, someone else is lying there, in this icy coffin – hope awakes, maybe this is all just a terrible dream. Realization follows: “i am still here, trapped in the coffin of ice!”

There are moments, when time stops;
there is no yesterday, no tomorrow, it’s just you;
your light lights up, like a comet in the skies, for a second;
trapped in timeless time that is not there at all;
drinking from a spring is a gift in the blessing of reality;
sometimes a smile, a touch of a warm hand, a look that does not need explaining, is enough;
those are the moments when time stops for you.

Tomaž Humar . 18.2.1969 - 10.11.2009
The morning between sky and earth

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quarta-feira, 10 de setembro de 2008

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Acordei e vi as coisas velhas na parede morta. E não era um sonho. Apesar da
casa nova, reformada, ao abrir os olhos recordei-me daquele dia em que minha
mãe entrou na sala quase sem móveis, apenas uns 3 banquinhos, um tapete
velho e uma TV pequenina em preto e branco. Naqueles dias de amargo
inverno não havia banho quente e a TV pequenina nada mostrava. Era mais
uma semana sem dinheiro, sem luz, sem saber quando e se meu pai voltaria
para casa.

Daquele dia recordo-me de absolutamente tudo, mas a coisa ainda mais
marcante aos olhos da criança de 6 anos de idade foram os olhos da mãe.
Estávamos meu irmão e eu recortando figuras de jornais velhos, as mãos sujas
de tinta preta. Minha mãe entrou bem devagar, sem fazer barulho, como se
escondesse alguma coisa. Olhou-nos e sorriu, e embora pareça para mim
estranho, tal e qual o estranho que me tornei para ela com o passar dos anos,
nunca mais a vi sorrir aquele mesmo sorriso daquele dia frio. Naquela tarde
não havia apenas um brilho diferente, havia também calor nos olhos dela.
Disse-nos boa tarde ao entrar, e pediu para que sentássemos. Foi só então que
percebi como meu corpo tremia de frio. Minha mãe tirou seu próprio casaco e
colocou sobre meus ombros para aliviar os tremores. Pausadamente, revelou
uma caixinha que trazia escondida às costas. Eu já sabia ler um pouco, mas a
mão dela cobria parcialmente as letras impressas na embalagem, de maneira
que não me atrevi a tentar adivinhar o que era a surpresa.

Pediu então ao meu irmão, dois anos mais velho, para que fosse à cozinha
apanhar duas canecas d´água. Em pouco tempo ele retornou, as duas mãos
ocupadas por duas canecas de barro, dadas à minha mãe pela minha avó
paterna, uma compensação pela noite em que meu pai entrou em casa aos
berros e quebrou quase tudo o que encontrou pela frente. Assim como os
poucos móveis, foram destruídas também nossas lancheiras e as pequenas
garrafas térmicas que usávamos para carregar o chá de capim limão que
minha mãe fazia para nós nos dias de frio.

Dias depois desse incidente, lembro de minha mãe chorando agarrada à
máquina de costura, a única coisa que ela conseguiu salvar quando meu pai
novamente apareceu, dessa vez com dois amigos e uma kombi. Entraram,
carregaram quase tudo o que tínhamos e levaram embora.
Deixaram a máquina de costura,talvez por pena, talvez porque não encontrariam
local em que pudessem vendê-la a um bom preço.
A TV pequenina também ficou. Pensaram que ela estava estragada,
logo, não faria sentido carregar "mais aquele lixo".

"Fique com essa merda", disse, abrindo uma lata de cerveja cara. E então deu
as costas, e só voltou a aparecer muitos anos depois, como se nada houvesse
acontecido, como se as cicatrizes do passado fossem invisíveis no presente. Ele
não havia quebrado somente nossa casa, nossas coisas. Em mim ele havia
destruído permanentemente um elo de paternidade, de carinho, respeito e
confiança.

Nas reuniões de pais e mestres da escola, nunca tive pai. Apenas minha mãe
comparecia. Minha mãe era - ainda é - mãe e pai. Era ela que me arrumava
para as festinhas em casa de colegas da escola, sempre com roupas
emprestadas de algum vizinho e ajustadas às pressas na máquina de costura.
Sim, era convidado, mas nunca pude levar presentes. Saía antes que
começassem a abrir os pacotes. Sempre fiz parte dessas reuniões, sempre
estive com eles, mas jamais fui um deles.

Ao sair, sempre cedo demais, tinha sempre guardadas na meia duas fichas
telefônicas, e era com elas que eu ligava para uma vizinha que, da janela,
gritava para avisar minha mãe. Ela largava o que fosse e vinha ao meu
encontro. Fazia o mesmo com o meu irmão. Minha mãe sempre foi mãe, a
melhor mãe do mundo, sempre esteve acima de qualquer coisa. Meu pai nunca
foi ninguém, e quando foi alguma coisa, essa coisa era uma sombra que
rondava em volta, faminta. Um fantasma do passado todavia presente, apesar
de agora a ausência ser minha. Não lembro dele quando acordo, nem quando
vou dormir. Hoje, excepcionalmente, as memórias resgatadas apresentam-se
apenas para introduzir o que tenho a dizer.

Para ajudar meu irmão, fui à cozinha e, assim como ele, enchi d´água uma
caneca, mas não uma caneca de barro, e sim uma velha caneca de alumínio,
ainda amassada depois do dia do estrago. Minha mãe sempre disse que a água
fica mais fresca quando colocada em canecas de alumínio. Enfim, estávamos
nós três ali reunidos, uma expectativa solene, as últimas horas do dia e com
elas o despertar de um sonho. Minha mãe revelou a caixinha toda e, como os
olhos dela, nossos olhos brilharam e também se encheram de calor. Foram
momentos extremamente doces, um lapso de alegria numa vida amarga.
Quietos e felizes, contemplamos essas horas. Sabíamos que, como os doces da
pequena caixa, as horas doces terminariam e dariam vez à novas e mais duras
horas amargas.

Não sei ainda a razão disso, mas daquele dia em diante soube que estava
preparado para qualquer coisa que me acontecesse. Lembro da minha mãe
cozinhando arroz numa leiteira colocada sobre uma lata com álcool, à luz de
duas velas. O momento doce não terminara, como pensávamos, quando
acabaram os doces da caixa. Apesar do gosto do chocolate ser substituído pelo
sal do arroz, a única comida naquela janta, aquele doce mantinha-se em
nossos olhos, em nosso pensamento.

Quando meu pai novamente retornou, desempregado e doente, não o via mais
como pai. Como se fosse um estranho que buscava abrigo, o acolhemos. Em
verdade, eles o acolheram. Assim que pude, que tive forças para me
desprender de tudo, fui embora. Na mochila pequena, quase nada. Na cabeça,
lembrança das horas doces passadas com minha mãe e meu irmão naquele dia
frio em que brincávamos de mãos sujas recortando figuras de jornais. Ao
passar pela banca em frente à padaria, vi uma caixinha igual à que minha mãe
nos trouxe naquele dia. Eu acabara de abandonar minha própria família, por
ter comigo uma mágoa que não era compatível com os sonhos deles de ter
uma família novamente.

Quando saí, nosso "hóspede" apenas disse, sem me olhar nos olhos, que "é
possível ter uma família com apenas um casal de filhos, mas nunca sem um
pai." Antes mesmo disso, por mais de uma vez chegou a dizer que não tinha
filhos. Nunca pude suportar a dor não de não ter um pai, mas a decepção de
nunca ser aceito como filho. Agora eu tinha uma irmã que, apesar de muito
pequena, chorou na hora em que me despedi. Ela não conseguia entender a
razão de eu estar saindo para nunca mais voltar. E talvez nunca entenda...
Entreguei o dinheiro ao senhor da banca, apanhei a caixinha de cima da pilha
de várias outras caixinhas iguais e fui embora. No meio do caminho para
qualquer lugar que fosse, uma mãe com duas crianças pedia dinheiro, comida
ou qualquer coisa. Abri a mochila e entreguei para ela a caixinha, e pude ver
também felicidade nos olhos deles. Nunca mais os vi. Nunca mais fiz o mesmo
caminho novamente.

Hoje, quando acordo e dou de frente com as mesmas paredes daqueles dias,
paredes iguais, apesar de novas, lembro que agora sou eu o estranho, o que
saiu sem previsão de retorno. Lembro das canecas de barro e dos jornais, da
caixa de Amanditas, do brilho nos olhos da minha mãe. Lembro das horas
doces. Sei que não há no mundo Amanditas suficientes para trazer de volta
aquela tarde, aquelas horas. E sei também que, enquanto as horas passam,
estou cada vez mais longe, apesar da força que faço para voltar.

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